Dezembro 16, 2009 - Deixe seu recado!

Dezembro 16, 2009 - Deixe seu recado!

O POUT-PORRI EASTWOOD

Novembro 19, 2009 - Deixe seu recado!

Não há sombra de dúvida de que Clint Eastwood é uma das últimas lendas de Hollywood. Surge nos momentos finais do western como gênero de popularidade. Ingressa para os filmes policiais como pioneiro de todo um estilo de atuação. É o herói inegociável que não abre nem mesmo mão de sua personalidade impenetrável. Sempre o mesmo, trata de maneira igual o bandido e a vítima, com a mesma truculência. Não importa: que a justiça seja feita ! Este personagem monótono é ícone. Símbolo de um modo-de-vida invejável e admirável.

Como se isto não fosse o suficiente, de ator lendário passa a ser diretor genial. Como se Eastwood não respeitasse o tempo, de diretor genial surge como exemplo de produtividade, trabalhando a beira dos 80 anos de idade. Em filmes dificílimos, diga-se de passagem. “Cartas de Iwo Jima”, por exemplo.

Gran Torino parece ser um pout-porri de toda a sua carreira. Sim, está tudo ali. Do cowboy fora-da-lei de Sergio Leone a Dirty Harry. Da influência de John Houston e dos últimos filmes de guerra. Gran Torino, como se não bastasse, é a própria conclusão, uma solução autônoma, para as muitas formas de conflitos e confrontos enfrentados pelo  policial, o soldado, o guarda-costas, o fora-da-lei. Todos personagens de Eastwood.

 

ALÉM DO OLHAR

Novembro 19, 2009 - Deixe seu recado!

Gosto de David Cronemberg. Mas gostar do diretor canadense depende de separar de maneira radical autor e obra - tanto quanto a radicalidade dele no trato do ser. Também é interessante ver a historiografia do cinema. É mais ou menos como acompanhar a História sob o inesperado ângulo da arte. Não se observa simplesmente pontos-de-vista de autores sobre uma dada questão mas de como a questão transige com o tempo.

Há quem veja o fim da história do cinema mas será que o cinema apenas não é apenas uma arte antenada com o tempo ? Foi o cinema que ficou mais pobre ou a realidade abriu falência ? Na aurora do século XXI somos sobreviventes sofisticados ? Animais ?

Insetos, seria a resposta de Cronemberg. Há quem julgue ser mais sensato ver o ser de dentro para fora. Isso não ofende o senso comum. Sempre nos extremos, o diretor de “A mosca” faz o mesmo exercício mas o resultado é, comumente, a exposição impiedosa das vísceras. De dentro para fora brota uma mosca monstruosa que afugentaria até mesmo as moscas de cadáveres.

POR QUE ESTA MOSCA TEM A CABEÇA BRANCA ?

Novembro 18, 2009 - Deixe seu recado!

Começa como uma história de mistério. Esposa de cientista mata o próprio marido. O corpo jaz, irreconhecível, esmagado duas vezes por uma prensa hidráulica. A própria assassina avisa o irmão do morto. O irmão, Vincent Price, comunica as autoridades. Todos reunidos, inclusive a criminosa, procuram entender o crime. A esposa não dá nenhuma pista além de uma estranha obsessão por moscas, passando a defende-las como se fossem pessoas.

Este é o enredo de boa parte da trama. Mas como o próprio cartaz avisa é a história de um homem, inventor da máquina de tele-transporte que, em uma experiência frustrada, embarca com uma mosca e sofre as previsíveis sequelas.

O lado humano predomina aqui em todos os sentidos. Por extensão, os milagres da ciência, e seus eventuais efeitos deletérios sobre a humanidade, são articulados num registro de exclusão. Se há forças que podem, de fato, conferir ao homem poderes inacreditáveis é melhor aderir a máxima: Mantenha o segredo !

Como uma boa história de mistério.

Assista o trailler

A LEI DA GRAVIDEZ

Novembro 18, 2009 - Deixe seu recado!

Ficção científica e religião tem mais em comum do que se imagina. Seria porque ambas lidam com o inacreditável, cada uma a sua maneira ? Só isso ? O sci-fi, de hábito, projeta uma realidade que a lei natural não sanciona. Viagens no tempo e tele-transporte, pra ficar nos exemplos clássicos. Ainda sim realidades. Religião exalta Deus, revelações, profetas cuja única legitimidade é a fé de quem crê. Mas não podemos testar isto em laboratório e, tâo-pouco, fiéis coerentes com suas próprias crenças. Nada existe exceto aquilo que os olhos podem ver. E o que podem ver é, nada mais nada menos, do que o infinito.

John Carpenter é um mediador competente. Talvez o único e o melhor do gênero a concretizar a síntese entre religião e ficção-científica. Certo, “A Cidade dos Amaldiçoados” é uma refilmagem de um filme já genial. Mas incorpora, ainda, elementos originalmente carpentianos.

Qual a diferença entre nascer de um ventre físico e o surgimento da consciência ? Temos duas certidões de nascimento contíguas. Desistir da procura das origens e ficar atento aquilo que a própria inteligência gera é um índice de evolução da humanidade. De repente, somos brindados com um novo salto evolutivo, mas adivinhem … É um filme de terror, uma raça superior é capaz de matar apenas com o olhar, não se deixam enganar pelos sentimentos. É claro que os seres humanos comuns são inimigos em potencial.

É aí que entra a sensibilidade de Carpenter para dar a exata medida de um conflito que não pode acabar em mútua e gratuita destruição.

Assista o trailler:

INIMIGOS A PARTE

Novembro 17, 2009 - Deixe seu recado!

Num futuro distante os planetas estão em guerra. As guerras tem que continuar já que não faz sentido trava-las dentro de um único mundo. A tantos a explorar. Mas algumas coisas são imutáveis. Mesmo que cheguemos algum dia a coabitar com formas alternativas de vida. Tanto faz que o universo infinito deixe de ser mapeado por astrônomos e o conheçamos tão facilmente como uma lista de endereços.

Homem e alienígena são obrigados a conviver juntos em um planeta estranho a ambos – eu ainda teria de chamar o alienígena assim ?. Por si só isto revela o quanto relações humanas (?) tem uma densidade toda própria. Numa existência cercada por possibilidades de fuga, lenitivos e alívios de toda espécie, o que ou quem realmente somos num estado de completo isolamento ? Ou de isolamento com apenas outra forma-de-vida ainda que hostil ?

Esta brilhante ficção-científica de Wolfgang Petersen (quem será este diretor ?!) deixa no chão qualquer tentativa de dar dignidade a reality-shows.

 

PENSO, LOGO … EXISTENZ

Novembro 17, 2009 - Deixe seu recado!

Homem-Ciência. Homem-Natureza. Homem-Máquina. Sob um ângulo tão inesperado quanto chocante David Cronemberg sinaliza com uma forma de terror ao alcance de todos. O homem não é apenas  uma cópula com adjetivos do dia-a-dia do conhecimento. É sim, e muito, mas apenas enquanto permanece estático. Como o homem é movimento o que surge, a princípio como nexo, evolui para a forma de um combate: Homem vs. Ciência. Homem vs. Natureza. Homem vs. Máquina.

O homem é um adversário inferior. Sempre perde.

Um jogo virtual e real, “Existenz”, é uma espécie de RPG jogado em rede. Os participantes tem um personagem de jogo interagindo num sonho coletivo. O show de Cronemberg fica por conta da quantidade de imagens metafóricas. Cinema puro, neste sentido, a concordarmos com a definição de que cinema “é sonho de olhos abertos”. Metáforas pesadas. Joysticks eróticos. Armas literalmente biológicas. Multiplicidade de ânus.

E há ainda um show paralelo de sedução. Temos um Cronemberg filosófico não muito comprometido com questões morais ou éticas. Moral e ética não são valores assumidos manifestamente pelo cinema. Nem devem ser. O caso é que o filme é apavorantemente verossímel. Faz do próprio cinema uma das armas do conhecimento contra o homem.

Talvez este filme seja o mais perturbador de David Cronemberg. Digo talvez porque  “Existenz” é o último filme que eu vi. A cinebiografia do diretor é um vasto leque de atrocidades tangíveis. Tão possíveis que chegam a provocar desejos contrários. Queremos que não seja assim. Queremos que o mundo da existência permita outros jogos. Outros jogos aonde podemos transcender para lugares como o céu. Não como o inferno projetado aqui.

QUEM SOU EU ?

Novembro 16, 2009 - Deixe seu recado!

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Num castelo sombrio … um homem solitário morre … uma palavra ecoa … “Rosebub”. O que é Rosebud ? é o trabalho que um repórter se dispõe a investigar. Em meio a investigação a vida de um homem entre o extremo da infância e o momento do óbito. Em meio a trama, toda uma trajetória de ruínas, perdas, arrogância, indiferença.

E a palavra Rosebud como a chave da trama se perde no drama da decadência e da glória de um homem escondido sob a fama de um magnata imoral e inescrupuloso. Não importa o que o que faça ou aconteça, entretanto, ao humano subjaz o destino da perdição. Talvez nem Adão e Eva tenham sentido tão de perto a perda do paraíso e a expulsão humilhante do Éden. Seja como for, a viagem é inevitável. Não há escolha.

Surge como uma fatilidade nascer em um estado de pureza do qual o homem será alijado. Retornar a ele depende de pequenas coisas que remanescem como elo entre o homem e sua humanidade. O que é o homem ? : mais do que um mistério Kane deu uma resposta. A primeira de uma série perquerida por todas as gerações de cineastas.

Terá sido Orson Welles o único a respondê-la com sabedoria ?

POBRE DO AMOR !

Novembro 16, 2009 - Deixe seu recado!

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O ideal é o tema do cinema, por excelência. Nada se aproxima tanto do ideal quanto os romances da realidade. É quando uma parcela considerável de nós, meros mortais, aspira, através de uma pessoa, calma e tranquilidade permanentes. Em tese, esta é a função do amor e do romance, senão ao alcance de todos ao menos ao alcance dos sonhos. Decepções são outro registro que não cabe explicar agora. Frustração, sim. É o caso de um ideal que não se concretiza pelo capricho do destino e não pela incapacidade humana de amar eternamente.

Dona-de-casa vive uma vida rotineira e isso é tanto mais grave quando já teve, no passado, aspirações mais ambiciosas. O casamento a confina em um território neutro: a família, da qual não pode sair por causa das obrigações esperadas de uma esposa e de uma mãe. Personagens que não são os dela realmente. Para vibrar a situação, um fotógrafo da National Geographic surge e, o que é mais grave, não se mostra como um aventureiro vulgar. É um aventureiro por natureza e da natureza.

O amor é tão inevitável quanto impossível. Pobre do amor que sempre exige sacrifícios além do suportável.

Assista o trailler: