“Sweeney Todd” é uma produção para a tv. Nem tão comentada quanto o “Sweeney Todd” de Tim Burton mas que merece uma espiada. O barbeiro em questão é um personagem que dá o tom a ambos os filmes em seu aspecto mórbido. Muito embora nada indique que ele coma os clientes da barbearia. O salão é o matadouro fornecedor de carne para que sua amada faça as deliciosas e procuradas tortas de seu restaurante.
O Todd de Dave Moore e Ray Winstone é mostrado a seco. Tem direção solene incapaz de conter a violência intrínseca do barbeiro. Ray Winstone é um ator provocante que parece destoar um tanto dos limites de uma produção para a tv. A esposa, lasciva e dedicada, é uma figura interessante demais para a própria produção aceitar os seus limites.
Um filme para a tv, sim. Mas tem todos os predicados para ser um filme de cinema. Numa comparação direta é mais forte do que o Todd de Burton. Mas esta é uma crítica para a próxima semana.
O universo de Alien – o oitavo passageiro é bem curioso. A nave Nostromo é programada para atender pedidos de socorro. Um S.O.S. é enviado para a nave enquanto a tripulação está congelada em câmaras criogênicas. Uma viagem de retorno cansativa na qual este aparelho é um indispensável recurso. No entanto, os sete passageiros dormem, os mundos lá fora estão operações muito ativas.
No suposto planeta em risco, uma raça inteira de alienígenas – os aliens – são chocados em ovos. O método de reprodução dos aliens requer um outro organismo que possa ser parasitado. É fácil concluir sobre as consequências do encontro. Não tão fácil é admitir que o processo de reprodução dos monstros é similar a uma gravidez mórbida que pode se dar tanto através de homens quanto de mulheres.
Contatos imediatos do pior grau possível, ainda paira ao redor desta história a chance de o encontro entre o predador e a presa ser premeditado. Mas quais predadores ? quem são as presas ? onde estão os monstros ?
Alien – o oitavo passageiro – Sweeney Todd – Justiça a qualquer preço – Harry Potter e a pedra filosofal – O enigma de Kasper Hauser – Hair – Apocalipto – O mais longo dos dias – 007 – Cassino Royale
Por muito tempo, o cinema brasileiro oscila sobre a elementar questão da produção. É mais ou menos como admitir que o cinema é uma arte cara. A menos que se tenha dinheiro para fazer um filme – e ele nunca existe – não é possível alavancar a produção brasileira a um status digno. Mal talvez a questão não seja tanto o dinheiro para um filme quanto a necessidade de transformar o filme em indústria. Se fosse indústria, uma quantidade razoável de produções, extrairíamos um nível interessante de obras, nos dando o direito de dizer que temos uma tradição enquanto criadores de cultura via imagem.
Mas mesmo sob estes limites há o trunfo da criatividade. O poder de um filme de dialogar com o seu próprio meio. Não existe uma regra de que a imagem tem que ser hollywoodiana para produzir um filme. As imagens deste mundo complexo e multifacetado tem que ser decupados pelo olhar universal. Mas isto não impede os olhares locais de fazerem tal exercício.”
“Cidade de Deus” é um filme bom demais para dedicar poucas linhas a uma crítica. Por ora, fiquemos nisto: transportar imagens brasileiras para a linguagem universal parece ser um caminho não tão longo a ser trilhado pela geração atual de cineastas aqui no Brasil.
“No rastro de um grande cineasta há sempre os seguidores. Se seguidores nunca são da mesma estatura do original a fidelidade não deixa de ser um sinal de genialidade. É o que se dá entre Steven Spielberg e Robert Zemeckis. Os filmes de Zemeckis, por mais diferentes que sejam, sempre tem em comum alta dose do fantástico. O que há de inesperado nisso costuma surpreender tanto quanto a próxima novidade tecnológica de efeitos visuais.
Temos a impressão de que o fator de ciração depende, inclusive, da capacidade de programas de computador de imitar as imagens da imaginação. Temos toda uma nova geração de histórias impossíveis de seres contadas pelos métodos tradicionais.
Neste conto de Natal, um bando de crianças recolhidas por um trem parte em direção ao polo Norte. Na continuidade do ponto-de-partida fantástico encontramos Papai Noel e todas as operações logísticas do Natal. O efeito “captura de performance” – programa que capta, através de sensores de movimento, os movimentos de um ator real e os converte para um ator virtual – pretende capturar não apenas a performance dos rostos mas a performance da alma em um contexto inusitado.
Não há sombra de dúvida de que Clint Eastwood é uma das últimas lendas de Hollywood. Surge nos momentos finais do western como gênero de popularidade. Ingressa para os filmes policiais como pioneiro de todo um estilo de atuação. É o herói inegociável que não abre nem mesmo mão de sua personalidade impenetrável. Sempre o mesmo, trata de maneira igual o bandido e a vítima, com a mesma truculência. Não importa: que a justiça seja feita ! Este personagem monótono é ícone. Símbolo de um modo-de-vida invejável e admirável.
Como se isto não fosse o suficiente, de ator lendário passa a ser diretor genial. Como se Eastwood não respeitasse o tempo, de diretor genial surge como exemplo de produtividade, trabalhando a beira dos 80 anos de idade. Em filmes dificílimos, diga-se de passagem. “Cartas de Iwo Jima”, por exemplo.
Gran Torino parece ser um pout-porri de toda a sua carreira. Sim, está tudo ali. Do cowboy fora-da-lei de Sergio Leone a Dirty Harry. Da influência de John Houston e dos últimos filmes de guerra. Gran Torino, como se não bastasse, é a própria conclusão, uma solução autônoma, para as muitas formas de conflitos e confrontos enfrentados pelo policial, o soldado, o guarda-costas, o fora-da-lei. Todos personagens de Eastwood.
Gosto de David Cronemberg. Mas gostar do diretor canadense depende de separar de maneira radical autor e obra - tanto quanto a radicalidade dele no trato do ser. Também é interessante ver a historiografia do cinema. É mais ou menos como acompanhar a História sob o inesperado ângulo da arte. Não se observa simplesmente pontos-de-vista de autores sobre uma dada questão mas de como a questão transige com o tempo.
Há quem veja o fim da história do cinema mas será que o cinema apenas não é apenas uma arte antenada com o tempo ? Foi o cinema que ficou mais pobre ou a realidade abriu falência ? Na aurora do século XXI somos sobreviventes sofisticados ? Animais ?
Insetos, seria a resposta de Cronemberg. Há quem julgue ser mais sensato ver o ser de dentro para fora. Isso não ofende o senso comum. Sempre nos extremos, o diretor de “A mosca” faz o mesmo exercício mas o resultado é, comumente, a exposição impiedosa das vísceras. De dentro para fora brota uma mosca monstruosa que afugentaria até mesmo as moscas de cadáveres.
Começa como uma história de mistério. Esposa de cientista mata o próprio marido. O corpo jaz, irreconhecível, esmagado duas vezes por uma prensa hidráulica. A própria assassina avisa o irmão do morto. O irmão, Vincent Price, comunica as autoridades. Todos reunidos, inclusive a criminosa, procuram entender o crime. A esposa não dá nenhuma pista além de uma estranha obsessão por moscas, passando a defende-las como se fossem pessoas.
Este é o enredo de boa parte da trama. Mas como o próprio cartaz avisa é a história de um homem, inventor da máquina de tele-transporte que, em uma experiência frustrada, embarca com uma mosca e sofre as previsíveis sequelas.
O lado humano predomina aqui em todos os sentidos. Por extensão, os milagres da ciência, e seus eventuais efeitos deletérios sobre a humanidade, são articulados num registro de exclusão. Se há forças que podem, de fato, conferir ao homem poderes inacreditáveis é melhor aderir a máxima: Mantenha o segredo !
Ficção científica e religião tem mais em comum do que se imagina. Seria porque ambas lidam com o inacreditável, cada uma a sua maneira ? Só isso ? O sci-fi, de hábito, projeta uma realidade que a lei natural não sanciona. Viagens no tempo e tele-transporte, pra ficar nos exemplos clássicos. Ainda sim realidades. Religião exalta Deus, revelações, profetas cuja única legitimidade é a fé de quem crê. Mas não podemos testar isto em laboratório e, tâo-pouco, fiéis coerentes com suas próprias crenças. Nada existe exceto aquilo que os olhos podem ver. E o que podem ver é, nada mais nada menos, do que o infinito.
John Carpenter é um mediador competente. Talvez o único e o melhor do gênero a concretizar a síntese entre religião e ficção-científica. Certo, “A Cidade dos Amaldiçoados” é uma refilmagem de um filme já genial. Mas incorpora, ainda, elementos originalmente carpentianos.
Qual a diferença entre nascer de um ventre físico e o surgimento da consciência ? Temos duas certidões de nascimento contíguas. Desistir da procura das origens e ficar atento aquilo que a própria inteligência gera é um índice de evolução da humanidade. De repente, somos brindados com um novo salto evolutivo, mas adivinhem … É um filme de terror, uma raça superior é capaz de matar apenas com o olhar, não se deixam enganar pelos sentimentos. É claro que os seres humanos comuns são inimigos em potencial.
É aí que entra a sensibilidade de Carpenter para dar a exata medida de um conflito que não pode acabar em mútua e gratuita destruição.
Num futuro distante os planetas estão em guerra. As guerras tem que continuar já que não faz sentido trava-las dentro de um único mundo. A tantos a explorar. Mas algumas coisas são imutáveis. Mesmo que cheguemos algum dia a coabitar com formas alternativas de vida. Tanto faz que o universo infinito deixe de ser mapeado por astrônomos e o conheçamos tão facilmente como uma lista de endereços.
Homem e alienígena são obrigados a conviver juntos em um planeta estranho a ambos – eu ainda teria de chamar o alienígena assim ?. Por si só isto revela o quanto relações humanas (?) tem uma densidade toda própria. Numa existência cercada por possibilidades de fuga, lenitivos e alívios de toda espécie, o que ou quem realmente somos num estado de completo isolamento ? Ou de isolamento com apenas outra forma-de-vida ainda que hostil ?
Esta brilhante ficção-científica de Wolfgang Petersen (quem será este diretor ?!) deixa no chão qualquer tentativa de dar dignidade a reality-shows.